Ao longo da história, a sociedade frequentemente atribuiu à loucura ou a distúrbios mentais as ações de pessoas perversas. Essa associação, embora comum, é problemática, pois desvia a atenção da verdadeira natureza da perversidade: a escolha consciente de causar dano ou agir contra valores éticos. Separar a maldade da loucura é crucial, tanto para compreender as motivações humanas quanto para evitar a estigmatização de pessoas com transtornos mentais, que em sua maioria não são violentas nem perversas. A perversidade como escolha consciente A perversidade não é um estado involuntário. Diferente de alguém que age impulsivamente por conta de uma condição psicológica, o perverso age com plena consciência de suas ações e de seus impactos. Ele entende o bem e o mal, mas opta por ignorar o bem quando isso lhe convém. Esse comportamento pode estar enraizado em características como egoísmo, desejo de poder ou prazer em subjugar o outro, mas não em delírios ou falta de contato com a realidade, que são características de muitos transtornos mentais. O problema de atribuir loucura a atos perversos é que isso reduz a responsabilidade do agente. Se alguém age de forma cruel e, em vez de ser visto como responsável por seus atos, é tido como “doente”, há uma transferência do julgamento moral para o clínico. Essa abordagem não apenas minimiza o impacto das escolhas do indivíduo, mas também reforça a ideia de que quem é mau não pode evitar sê-lo – o que é, em muitos casos, uma visão errada. O impacto da estigmatização na saúde mental Atribuir a perversidade à loucura reforça o estigma em torno das doenças mentais. Pessoas com transtornos psicológicos são constantemente associadas a comportamentos violentos ou antiéticos, quando, na realidade, a maioria delas não apresenta essas características. Essa narrativa sensacionalista não apenas prejudica a compreensão pública da saúde mental, mas também afasta aqueles que precisam de ajuda, temendo serem vistos como “perigosos”. Por outro lado, há uma romantização da ideia de que, se alguém cometeu algo perverso, deve ser por não estar em pleno uso de suas faculdades mentais. Isso cria uma visão injusta tanto para as vítimas, que veem o agressor ser tratado como “inocente”, quanto para a sociedade, que falha em tratar o problema real: a escolha deliberada de ser cruel. A linha entre maldade e patologia É importante distinguir entre maldade e patologia. A psicopatia, por exemplo, é um transtorno de personalidade que pode levar alguém a agir sem empatia ou remorso, mas mesmo nesses casos, a psicopatia não implica necessariamente violência ou crueldade. Além disso, a presença de traços psicopáticos não elimina a capacidade de escolha. Muitos indivíduos com essas características vivem sem causar dano significativo a outros. Perversidade, no entanto, é muitas vezes resultado de valores distorcidos, interesses egoístas ou desprezo pelas consequências de suas ações sobre os outros. A linha de separação entre o comportamento moral e imoral pode ser atravessada por aqueles que escolhem ignorar princípios éticos, mesmo quando têm plena capacidade de discernimento. Por que isso importa? Separar loucura de perversidade não é apenas uma questão de precisão conceitual; é uma questão de justiça. Entender que a maldade pode ser uma escolha – e não apenas um resultado de doenças ou disfunções mentais – permite que lidemos melhor com essas questões. Isso significa responsabilizar os perversos por suas ações, ao invés de tratá-los como vítimas de sua própria mente. Além disso, tal distinção nos ajuda a combater o estigma contra a saúde mental, promovendo uma compreensão mais precisa e empática das condições psicológicas. Pessoas que vivem com transtornos mentais devem ser vistas como necessitando de apoio e tratamento, não como potenciais agentes de destruição ou crueldade. Atribuir loucura a atos perversos é uma simplificação que prejudica nossa capacidade de lidar com a complexidade do comportamento humano. Perversidade é, na maioria das vezes, uma escolha deliberada, e tratá-la como algo inevitável ou patológico é uma forma de proteger quem não merece proteção. Para avançarmos enquanto sociedade, precisamos enxergar o perverso pelo que ele é: alguém que escolhe ignorar o bem em prol de seus próprios interesses, e não alguém que age sem saber o que faz. Essa distinção é fundamental para construir um mundo mais justo, que responsabilize os culpados sem estigmatizar os inocentes. (*) Cristiane Lang é psicóloga clínica.