Em Campo Grande, há bares que vão e vêm. Mas a Conveniência Yamazaki, na Vila Carvalho, não é um boteco qualquer. Aberto há 40 anos, o espaço mantém a alma de quando foi inaugurado, em 27 de setembro de 1984, por Yoshie Yamazaki, a dona Rosa, hoje com 82 anos. A cerveja continua trincando, as mesas de plástico seguem firmes e os petiscos já alimentaram três gerações de fregueses. O que mudou? Só a administração, que agora está nas mãos da neta de dona Rosa, Letícia Viana Yamazaki, de 27 anos. “Eu assustei, mas acreditei que se minha vó estava me escolhendo, é porque ela sabia que eu tinha capacidade de continuar a história do comércio dela”, conta Letícia, que assumiu o bar há três anos, quando recebeu um ultimato da avó: ou tocava o negócio, ou as portas se fechavam. Dona Rosa se afastou e foi aproveitar a aposentadoria em Aquidauana, deixando o legado nas mãos da neta, que cresceu entre as prateleiras abarrotadas de doces clássicos e perto dos fregueses fiéis. Nos anos 80, quando dona Rosa decidiu abrir o bar, a paisagem da Vila Carvalho era outra. No lugar da ciclovia da Via Morena, passavam trilhos de trem. “Aqui tinha um passeio de trem, as pessoas vinham aqui comprar paçoca e ficavam vendo o trem passar”, recorda Letícia. Naquela época, quase não havia comércio na região. O marido de dona Rosa montou uma serralheria ao lado, mas quem tocava o bar era ela, e sempre foi assim. Hoje, o Yamazaki mantém a fórmula do sucesso que atravessou décadas. O horário continua o mesmo: abre às 6h da manhã e só fecha à noite, sem pausa para o almoço. “Minha avó sempre acreditou que abrir cedo pega o público que está indo trabalhar. Se não fechar no almoço, pega o pessoal que não vai pra casa e quer comer alguma coisa”, explica. O boteco também se destaca pelas cachaças saborizadas, tradição iniciada por dona Rosa e mantida por Letícia. As garrafas enfileiradas atrás do balcão guardam licores de guavira, jabuticaba, canela e outras misturas que conquistam quem experimenta. “A gente mesmo planta e produz a cachaça de guavira e jabuticaba”, conta Letícia. As bebidas ficam curtindo por cerca de dois meses antes de serem servidas. Quem prova, muitas vezes, acaba levando uma garrafa inteira para casa. A clientela é fiel. Muitos frequentam o bar há tanto tempo que viram Letícia pequena correndo entre as mesas. Hoje, são atendidos e servidos por ela. “Eu costumo até brincar que preciso arrumar clientela nova, porque meus clientes estão ficando muito velhos”, ri a jovem empresária. Os mais nostálgicos ainda chamam o espaço de “Bar da Dona Rosa”, e há quem entre perguntando se o boteco foi vendido. “Muitos clientes vêm aqui e perguntam se o bar foi vendido e explico que o negócio continua da família”, conta Letícia. Mesmo com o tempo, a nova administradora faz questão de manter o espaço do jeito que sempre foi. “Tem dias que meu pai fala: ‘Mexe em alguma coisa’, mas eu fico com medo de perder a essência”, confessa. Em uma prateleira no fundo do balcão, por exemplo, segue intacta uma estátua de São Judas Tadeu que ninguém sabe ao certo quem colocou ali. “Acho que foi algum cliente que deu, porque eu não sou católica”, comenta a jovem. Hoje, a filha de Letícia, de 7 anos, também já dá seus primeiros passos pelo bar, garantindo que a quarta geração da família tenha boas lembranças por ali. “Minha avó me agradava com muito doce, eu sempre fui a primeira a ter as novidades. Ela fazia questão de a gente provar”, relembra. Entre cervejas trincando, petiscos e a cachaça de guavira, a conveniência segue firme como um dos últimos raiz da cidade. E enquanto a clientela continuar fiel, a história de dona Rosa segue nas mesas. Siga o Lado B no WhatsApp , um canal para quebrar a rotina do jornalismo de MS! Clique aqui para acessar o canal do Lado B e siga nossas redes sociais .